Sobre os figurinos e a encenação

Teatro chamado a desvendar as contradições da nossa condição, “O réu Ubu” contribui para modificar radicalmente a relação entre o espectador e o actor.
Partindo da ideia de J. Joyce enunciada em “Ulisses”: a arte deve apenas revelar-nos ideias, essências espirituais libertadas de qualquer forma”, eu optei por uma encenação e figurinos pertencente a uma política do símbolo. O romantismo burguês, diminuindo a sua confiança no poder intelectivo do público, dissolveu o símbolo, que o teatro greco, medieval e da “commedia dell’arte” praticavam, em pormenor.
Começou-se a utilizar fatos verdadeiros e já não significantes. O fato deverá permitir ao autor de actuar sem peso parasita nas sua tarefas essenciais, isto é, transmitir o significado profundo da obra. Tentei encontrar nos fatos, sendo eles uma escrita, uma ambiguidade que se coloca ao serviço da obra de Jarry. O fato demasiado belo ou desmaiado feio não permite esta leitura, e falha a sua função. Tentei que o guarda-roupa não seja demasiado imponente, sem que, no entanto, deixe de existir.
O trabalho de encenação foi o de transmitir tudo o que está no amor, no crime, na guerra ou na loucura, agindo sobre os nervos e o coração do espectador, descobrindo uma linguagem a meio caminho entre o gesto e o pensamento.
O texto de Jarry é intempora
l, jogamos uma intemporalidade simbólica num cenário vazio.
 
Sobre o autor

Alfred Jarry (1873-1907) formulou as suas teorias sobre o teatro em textos cujos os títulos e conteúdos eram deliberadamente provocadores. O teatro deve ser simples e mesmo rudimentar, os cenários e as intrigas serão o mais sóbrio possível para permitir a propagação de um teatro do absurdo.
Criando um personagem que anuncia as figuras do ditador, tal como encontramos em Brecht (Arturo Ubi), Jarry utiliza uma linguagem bizarra e desconcertante, mistura de linguagem meio-letrada, meio-vulgar, deforma à-vontade as palavras, é percursor das rupturas cénicas que serão instituídas por Antonin Artaud, os escândalos surrealistas e a intervenção política da literatura, característica da segunda metade do nosso século.
A sua obra de referência: “UBU ROI”. Ubu é um pequeno burguês, funcionário ao serviço do Rei da Polónia. Sob a pressão da sua mulher ambiciosa ele decide matar o Rei para ocupar o seu lugar. Piscar de olho a Macbeth. Mas Ubu é cobarde e mal-criado. Uma vez no trono, revela-se cruel, estúpido, e o seu pensamento político é absurdo.
Ele transforma-se de pequeno burguês a tirano sanguinário, mas não é desprovido de um singular grão de razão, proferindo verdades inquietantes, como verdade saindo da boca de uma criança.
 

  Ficha Técnica

Autor
Alfred Jarry

Encenação, direcção de actores e figurinos
Muriel Anastaze

Produção
Cooperativa Bonifrates

Luminotecnia e sonoplastia
Jorge Janicas
Paulo Viegas

Adereços
Paulo Viegas
Muriel Anasteze

Cartaz, capa de programa e postal
Tiago Madeira

Dispositivo cénico e montagem
Muriel Anastaze
Paulo Viegas

Actores
Rui Damasceno
Ubu
Helena Faria
Mãe Ubu
Fernando Taborda
Capitão Bostal
João Maria André
Os Monarcas
Cristina Janicas
A Rainha
João Miguel Amado
Bardalau
João Keating
Giró e outros
Rui Quinteiro
Fisga
Nuno Oliveira
Um actor para muitos personagens

Agradecimentos
António Ataíde
Carlos Jesus
Paralelodois
RUC