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Revisitar
o Principezinho
Há sonhos que carregamos connosco durante anos, ora adormecendo-os
nas canseiras da vida, ora despertando-os na ternura com que começamos
a descer as encostas do tempo, ora acedendo neles à lucidez poética
que a administração dos dias nos vais negando.
Saint-Exupéry sonhou, há muitos anos, um principezinho,
vindo de fora, de um planeta (im)possível, a vaguear no espaço
cheio de lonjuras que o avião apenas também só podia
inventar na fragelidade do seu motor e das suas asas. Por mim, há anos
que sonho essa criança sobre as tábuas do palco. Sem grandes
artifícios, a não ser o deixar falar as palavras de quem
primeiro o sonhou. Mas com uma diferença: de que não há sonhos
que nãos nos salvem se é de fora que os esperamos. Tudo
está aqui, na terra, ao nosso lado, sob os nossos pés, à espera
de que aprendamos a ver o essencial que, afinal, “é invisível
para os nossos olhos”.
É
por isso que neste projecto de releitura de um clássico da nossa
infância, essa idade em que coincidem todas as idades do homem
e de todos os homens do mundo, o principezinho não caiu do céu,
mas surge do seio da terra, os planetas deixam as estrelas fazer a sua
dança eterna e emergem do chão do deserto, nas crateras
dos vulcões donde também nascem rosas, flores e serpentes… A
toca da raposa é o buraco do tempo do principezinho e os habitantes
dos planetas erguem-se sobre o seu e nosso chão, mostrando-nos
ao espelho as nossas vaidades, as nossas pretensões, a nossa insensatez,
a nossa mesquenhice, a nossa oca erudição, mas também
a grandeza dos pequenos gestos com que apagamos o dia e acendemos a noite.
Se os representamos com marionetas é para mostrar como também
nós deixamos conduzir tantas vezes por amares invisíveis, é para
perceber como imperceptíveis são os fios da morte com que
a serpente nos faz regressar à terra donde saímos e faz
regressar à noite os sonhos que nos habitaram… De carne
e osso é a raposa que nos continua a ensinar os rituais da ternura, é também
o vendedor que administra as pílulas da sede nos caminhos do desejo, é ainda
o agulheiro que gere as viagens nos comboios do espaço do tempo.
Ah, é verdade: e o principezinho que sonhamos (ou foi ele que
nos sonhou a nós?...) quando o nosso avião já se
mostra incapaz de voar…
Comecei por sonhar o principezinho e os
seus planetas como quem abre uma caixinha de música e se deixa hipnotizar pela sua leveza.
Descubro agora, como o piloto do avião, que me esqueci de pôr
a correia de correia de couro no açaimo da ovelha. A música
vai parar e os homens não sabem se as ovelhas são capazes
de conviver pacificamente com as flores. Vai uma aposta? O melhor é começar
tudo de princípio e voltar a habitar o mundo que começa
para lá (ou para cá?) das músicas com que se faz
alegria.
João
Maria André
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Ficha Técnica
Texto
Antoine de Saint-Exupéry
Tradução, Adaptação
e Dramaturgia
João Maria André
Encenação
João Maria André
Cenografia,
Marionetas, Figurinos e Adereços
Delphim Miranda
Coreografia
Gabriela Figo
Direcção
do Trabalho de Marionetas
Delphim Miranda
Música
João Lóio
Desenho de Luzes
Nuno Patinho
Construção
dos Planetas
André Letria
Serralharia e Montagem
António Pedro Martins,
Bruno Meneses,
Hugo Cardoso, Tony Seco
e A. Margalho
Costureiras
Alzira Azevedo e Micaela Larish
Carpintaria de Cena
Laurindo Fonseca
Mecanismos de Cena
Produções Luís
de Matos
Intérpretes/actores
Victor Torres
(Piloto)
Virgínia
Pinheiro,
Inês Margarido,
Filipa Mateus,
Mafalda Melo
e Joana Pais
(Pricipezinho)
Carina Valdas
(Flor)
Alexandra Silva
(Raposa)
Maria Manuel Almeida
(Serpente)
Manipuladores de Marionetas
Nuno Bonito
Fernando Paula Barroso
Eurídice Rocha
Colaboradores de Cena
André Santos
Fábio Valadas
Colaborador na banda Sonora
Manuel Pires da Rocha
Gravação
Sonora
Click Estúdio
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Sobre o autor
Antoine de Saint-Exupéry
nasceu
em Lião, a 29 de Junho
de 1900. Passou a infância em casa de uma tia, perto de Ambérieu,
fazendo depois os seus estudos em Sainte-Croix-du-Mans, na Suíça
e em Paris, onde se preparou para entrar na Escola Naval. Tendo ficado
reprovado na oral do exame de admissão, resolve ingressar em
Belas-Artes.
Em 1921, começou a cumprir o serviço militar em Estrasburgo,
no ramo da Aviação. A partir do momento em que aprende
a pilotar, tem a carreira traçada. Depois de sair da tropa,
em 1923, terá vários empregos. Começa a escrever
e, em 1925, publica a sua primeira narrativa cuja acçãose
situa no mundo da aviação. Em
1926, Saint-Exupéry entra, como piloto, para a companhia
Latéc transporte
do correio entre Toulouse e Dacar.
Seguidamente, é nomeado chefe
de escala do porto de Juby, no Rio do Ouro. É nessa época
que escreve “Courrier
Sud” (“Correio do Sul”) (1929).
Acompanhado por Mermonz
e Guillamet, parte para a América do
Sul, a fim de estudar a possibilidade de criação de novas
linhas aéreas nesse continente. Em 1931, publica “Vol
de Nuit” (“Voo Nocturno”), que alcança um
sucesso bastante considerável.
Entretanto, a companhia Latécoère abre falência
e Saint-Exupéry tenta, em vão, em 1935 e ao serviço
da Air France, bater o recorde aéreo Paris-Saigão.
Em 1939, tenta fazer a ligação aérea de Nova Iorque à Nova
Terra do Fogo: gravemente ferido, passa largos meses de convalescença
em Nova Iorque. É então que publica “Terre des
Hommes” (“Terra dos homens”) (1939).
Durante a Segunda Guerra, faz parte do Exército de Libertação,
mas devido à sua idade, é proibido de pilotar.
Não obstante, Saint-Exupéry insiste para que lhe sejam
atribuídas missões: a 31 de Julho de 1944, levanta voo
de Borgo, na Córsega. Nunca mais voltará. Durante a Guerra,
publicou três livros: “Pilote de Guerre” (“Piloto
de Guerra”), “Lettre à un Otage” (“Carta
de um Refém”) e “Le Petit Prince” (“O
Principezinho”), em 1943.
In Antoine
de Saint-Exupéry,
O Principezinho, Edição
Caravela
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