Ficha técnica Texto Jorge Amado e Daniel Filipe Música Heitor Villa-Lobos Adaptação e Encenação João Paulo Janicas Cenografia e Figurinos Carlos Madeira Expressão Corporal Paula Santos Desenho de Luzes Nuno Patinho Efeitos sonoros Amilcar Cardoso Cartaz e Programa Carlos Madeira e Rita Madeira Fotografias Sérgio Azenha Penteados Carlos Gago Carpinteiro Sr. Inácio Produção Cooperativa Bonifrates Actores Rui Damasceno Gato Malhado Alexandra Silveira Andorinha Sinhá Alexandra Silva Vaca Mocha Fernando Taborda Reverendo e Papagaio Paula Santos Cascavel Daniel Silveira Rouxinol Maria Manuel Almeida Mãe da Andorinha João Gouveia Pai da Andorinha Rita Grácio Cadela Guido Relva Noite e Cão Dinamarquês Virgínia Pinheiro Manhã e Galinha Carijó Hélder Wasterlain Vento e Galo Apoios Câmara Municipal de Coimbra, Deleg. do Centro do Minist. da Cultura Ilídio Design, Diário As Beiras, Diário de Coimbra, RDP RUC |
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Sobre
os autores
(texto | música) Jorge Amado Nascido em 1912 em Pirangi, na Bahia, reparte a sua infância entre uma plantação de cacau e Ilhéus, cidade do litoral baiano. Estuda na Baía, antigo nome da actual cidade de Salvador, a partir dos 10 anos, e vai para o Rio de Janeiro mais tarde, onde se dedica ao jornalismo. Os seus primeiros passos na carreira literária, em 1922, coincidem com o ano da realização da Semana de Arte Moderna, em São Paulo. Jorge Amado ficaria para sempre marcado por esse movimento, que modificou o modo de pensar o Brasil não mais como uma cópia da Europa, mas como um país de cultura própria. Licencia-se em Direito em 1935, quando já tem publicados alguns romances (O País do Carnaval, 1931, Cacau, 1933 e Suor, 1934), que constituem o «ciclo do cacau». A sua marcada oposição à situação política vivida no Brasil levou-o ao exílio por duas vezes, a primeira em 1941, tendo regressado em 1942, e a segunda em 1948, por um período de quatro anos. Durante o exílio, viajou para países como Argentina (Buenos Aires), onde escreveu O Cavaleiro da Esperança (1942), biografia de Carlos Prestes, França, União Soviética, China, Mongólia, entre outros países, tendo estado também no Médio Oriente. Em 1951 recebeu o Prémio Estaline, com a designação de «Prémio Internacional da Paz». Os problemas sociais orientam a sua obra, mas o seu talento de escritor afirma-se numa linguagem rica de elementos populares e folclóricos e de grande conteúdo humano; com toques de picaresco, sem perder a essência crítica e a poética. Além das já citadas, referimos, na sua vasta produção: Jubiabá (1935), Mar Morto (1936), Capitães da Areia (1937), Seara Vermelha (1946), Os Subterrâneos da Liberdade (1952). Com Gabriela, Cravo e Canela (1958), Os Velhos Marinheiros (1961), Os Pastores da Noite (1964) e Dona Flor e os Seus Dois Maridos (1966), o romancista regressa a temas como a infância, a música, o misticismo popular, a turbulência popular e a vagabundagem, numa linguagem de sabor poético, humorista, renovada com recursos da tradição clássica ligados aos processos da novela picaresca… Daniel Filipe Poeta e jornalista cabo-verdiano (1925-1964), de nome completo Daniel Damásio Ascensão Filipe. Nascido na Ilha da Boavista, ainda criança, veio para Portugal onde fez os estudos liceais. Foi funcionário público, jornalista, publicitário, poeta e ficcionista; co-director dos cadernos de poesia Notícias do Bloqueio, publicados no Porto entre 1957 e 1962, colaborou em diversas publicações, como O Diabo, Seara Nova e Távola Redonda. Realizou, na Emissora Nacional, o programa literário “Voz do Império”. Daniel Filipe iniciou a sua actividade literária em 1946 com Missiva, seguindo-se Marinheiro em Terra (1949), O Viageiro Solitário (1951), Recado para a Amiga Distante (1956), A Ilha e a Solidão (1957) Prémio Camilo Pessanha; o romance O Manuscrito na Garrafa (1960), A Invenção do Amor (1960), Discurso sobre a Cidade (1961) e Pátria Lugar de Exílio (1963). A sua poesia, num curto espaço de tempo, evoluiu desde a temática africana aos valores neo-realistas e a um intimismo original que versa o indivíduo e a cidade, o amor e a solidão, aliando a combatividade revolucionária a uma fina sensibilidade lírica. Como outros opositores do regime salazarista, foi perseguido, preso e torturado pela PIDE. Heitor Villa-Lobos Compositor brasileiro, nasceu em 1887, no Rio de Janeiro É considerado um dos compositores latino-americanos mais importantes do século XX e, por muitos, o maior compositor para guitarra deste século, apesar de ter composto apenas cerca de quatro dezenas de peças para entre instrumento entre o milhar de obras que compôs. Villa-Lobos compôs óperas, bailados, sinfonias, concertos e a peças para solo. O seu estilo foi profundamente influenciado pelos instrumentos de percussão e pelos ritmos brasileiros. A sua música é o resultado da combinação de melodias indígenas (cantos índios, ritmos negros da Bahía, canções populares urbanas e rurais, sona da natureza) com elementos rítmicos de clássicos ocidentais, como Bach e Puccini. Desde muito cedo que começou a investigar a música tradicional brasileira. No seu Rio natal, acompanhava pequenos conjuntos instrumentais que na rua improvisavam sobre temas em voga, principalmente chôros. Em 1915, depois de ter viajado pelo interior do Brasil, contactando com o folclore, publicou algumas composições. Quatro anos mais tarde, passou a ser reconhecido mundialmente, depois de o pianista Arthur Rubinstein tocar várias músicas suas. Em 1951, há-de escrever a pedido de Andres Segóvia, que anos antes havia considerado impossíveis de tocar os Estudos para guitarra que Villa-Lobos compusera, o Concerto para Guitarra. Um dos seus trabalhos mais característicos é Bachianas Brasileiras (1930-44), um conjunto de nove peças feitas segundo a técnica de contraponto, à maneira de Bach. Nessa linha, também compôs Chôros (1920-29), constituído por uma série de catorze peças. As doze sinfonias que escreveu (1920-58) estão quase todas associadas a eventos históricos ou a lugares. Dentro dos poemas sinfónicos, destacam-se Uirapurú (1917), Amazonas (1929) e Amanhecer numa Floresta Tropical (1954). |
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ESPECTÁCULO
O desejo de colocar em cena O Gato Malhado e a Andorinha Sinhá nasceu da moralidade em questão na fábula, do envolvimento de maravilhoso cósmico em que ela é contada, da brincadeira poética na escrita do autor. Ora bem, dito isto pouco mais haveria a dizer, se a adaptação teatral e a encenação do livro de Jorge Amado não o transformassem necessariamente noutra coisa… Em primeiro, transformar a linguagem da acção escrita em linguagem de acção feita em cena, deixa-nos (neste caso? sempre?) a sensação de ter perdido algo da tal brincadeira em que se entretém constantemente a mão poética do escritor; quando vemos o texto literário posto em cena, essa falta é, na melhor das hipóteses, metamorfoseada em luz e sombra, som e silêncio, espaço e movimento… Depois, quando à fábula cósmica de Jorge Amado se juntou a poesia política de A invenção do amor, de Daniel Filipe, foi para tornar claro a questão moral de fundo que está velada no amor (im)possível do Gato Malhado e da Andorinha Sinhá: o conflito entre as rígidas leis da natureza e a possibilidade do amor (uma invenção da cultura humana) tem o seu simétrico no conflito entre as leis da sociedade humana totalitária e um amor inventado. Tanto num caso como noutro, a invenção (natureza essencial do humano) é a transgressão e o perigo fundamentais que nem o Papagaio da moral animal nem a moral da voz que domina na Cidade podem admitir. A tensão entre o amor/a invenção e a norma ganha assim luz… Posto isto, vem a estrutura cíclica do espectáculo, que corresponde à circularidade dos dias, das estações do ano, do cosmos, da vida humana… Eterno retorno real? Circularidade aparente? Fragmentação? Um círculo que pode ser quebrado? Evidentemente, estas questões obscuras, ao teatro interessa mostrar, não responder. Postas em cena, configuram-se tanto no esquema cenográfico (ao mesmo tempo circular e fragmentário), como na volta dramatúrgica que leva o espectáculo a acabar com um recomeço (mas que já não é exactamente igual ao princípio). A música de Heitor Villa-Lobos traz de volta a cor à depuração do natural que operámos nas personagens e no espaço (em Jorge Amado temos animais que vivem num parque; aqui são pessoas que convivem num qualquer pátio citadino), permitindo reabrir a palete dos sentimentos, prolongar as palavras e suportar os movimentos. A Voz na Noite, ao mesmo tempo coro e materialização da opressão, emerge nas palavras de Daniel Filipe como a eminência parda que espreita e vela, guardiã de uma moral qualquer que é, antes e cada vez mais, totalitária porque se impõe em toda a parte não só no espaço público de uma cidade em ditadura, mas também no espaço íntimo das nossas consciências, que adormecem à televisão enquanto a voz do locutor dita a realidade. E então? Então, vem de novo a Manhã… E com ela, apesar de tudo, a lembrança de um sonho em que, afinal, a Andorinha fugia com o Gato, para algures onde o (seu) amor era possível… E o Tempo, enfim, doente e velho, nos conceda ainda a rosa azul que medrou há muitos séculos… João Paulo Janicas |
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