O espectáculo

Descobri Alfonso Vallejo e Fly-By, por acaso, na Livraria Avispa, de Madrid, e seduziu-me, de imediato pela sua linguagem teatral, pelas potencialidades cénicas que continha e pela sua actualidade de que se revestia.

Escrita, decerto, para um contexto histórico diferente daquele em que vivemos, não é, no entanto, por acaso que as suas primeiras representações ocorrem fora de Espanha. A razão está, assim pensamos, na universalidade da sua linguagem e na penetração crítica permanente de que se ereveste o diagnóstico que faz da realidade envolvente em que nos movimentamos no nosso quotidiano.

O fundo de Fly-By é, sem dúvida, uma sociedade fechada. A perícia e o vigor com que A. Vallejo movimenta o seu bisturi remete-nos para uma claustrofobia simbólica, em que as forças da clausura tanto podem ser impostas pela estrutura sócio-política como pelas representações que o nosso conformismo lhe empresta dando às entrelinhas do poder a densidade manietadora e paralisante só comparável ao pesado de que se reveste uma camisa-de-forças nos mais conservadores asilos psiquiátricos.
A cura do mal do século talvez resida, antes de mais, na libertação da imagem criadora de que a ave humana mais não será do que um indicativo. A libertação da imaginação é a fugaao medo e, com ela, o estilhaçar dos mais ou menos sofisticados figurinos do poder e dos poderes. No interior da peça, tal libertação passa pelo voo. No contexto da sua representação, passa, sem dúvida pelo riso. E rir ou voar são as formas mais puras da loucura. Por isso, e porque o teatro é sempre um espaço habitado pela loucura, o voo das personagens e o riso dos espectadores são as armas do corpo teatral, ou seja, dos muitos corpos e dos muitos gestos em que se inscrevem as loucuras do desejo e os desejos de loucura.

Fly-By é um grito de liberdade contra todas as clausuras impostas pela sociedade em que vivemos: nada escapa ao olhar crítico e mordaz, mas trágico e cómico ao mesmo tempo, de Alfonso Vallejo, médico madrileno: contra a loucura social, soltemos o riso sarcástico da nossa sadia loucura e deixemo-lo voar, sem amarras, até ao infinito...


João Maria André  
 
 









Ficha técnica

Autor
Alfonso Vallejo

Tradução, adaptação e encenação
João Maria André
Letras
João Maria André

Cenografia e figurinos
Carlos Madeira
e Jorge Janicas


Banda sonora e Músicas
Amílcar Cardoso
e Carlos Madeira


Luminotecnia
Jorge Janicas e Tiago André


Sonoplastia
Mário Coimbra


Adereços
Gustavo Cardoso


Cartaz
Tiago Madeira


Produção
Cooperativa Bonifrates


Carpinteiro
Mário Sousa


Publicidade
João Paulo Janicas


Outros Colaboradores:
Dalila Salvador
Natércia Coimbra
Maria João Caldeira
Margarida Caramona
Alexandra Delgado
Henrique Nunes
Ofélia Libório


Cabeleireiros:
Ilídio Design


Actores
Ricardo - Fernando Taborda
Batazar - Francisco Paz
Antonino - Pedro Santos
Mirita - Alexandra Silva
Doutora - Maria José Almeida
Pelino - Rui Damasceno
Jornalista - Cristina Janicas
Enfermeira - Rosário Figueiredo
Doidos - Nuno Bonito, Carla Pinto
e Cristina Janicas

 



Notas para compreensão de um autor

Alfonso Vallejo é o mais alto e importante que se pode ser no quadro dramático: um poeta de contexto trágico. Um poeta contemporâneo. Patólogo na Universidade, patólogo no hospital e patólogo no Teatro, o cientista sabe, com a agudez visual do tradicional "olho clínico", que para além da pela, dentro da mesmíssima medula do ser humano, há algo em cujo descobrimento se ufana a humanidade desde que pôs o pé: o mistério das famosas paixões - uma, segundo o modelo clássico, para cada situação dramática rastreável -, o problema das relações com "o outro", o cruzamento interpessoal, o choque, o confronto, a luta que o teatro vem há dois mil anos transfigurando para tornar translúcida a opacidade e ordenar a desordem.
Sigo Vallejo com grande afecto já há muito tempo e muito especialmente estes dez anos que popularizaram o pseudónimo e que vão desde os prémios Lope de Vega e o Tirso de Molina, em dois anos consecutivos, à inolvidável estreia de El Cero transparente
perante uma audiência surpreendida, fascinada e sacudida pela presença pública de um homem que se acerca com paixão da sociedade em que vive, que com paixão defende a liberdade e com paixão vigia as consequências desse ser livre e societário. Vallejo faz isto com um baralho próprio em que são trunfos a tensão poética, o ponderado temor ao realismo mesquinho e o muito pessoal sistema de comunicação que o grande autor utiliza para nos fazer conhecer os seus achados.
 
 
 
 
Tudo isto devia ser já estudado nas escolas. Não o é. Alfonso Vallejo permanece na amizade e no respeito dos mais informados sem que a sua insistência criadora - quase trinta comédias - se veja recompensada com a assumpção normal desse trabalho pela mecânica económica do nosso teatro. Não é que seja mais fácil. É que a leitura é quase o único caminho possível para o conhecimento de A. Vallejo. Coisa grave. Porque esse teatro está escrito para ser representado e para entrar.

Sentido do teatro, sentido da síntese, sentido da expressão, sentido da imagem, capacidade poética, capacidade de humor, medida das situações. Médico, poeta dramaturgo, humorista, pintor. às vezes, Alfonos Vallejo não parece homem deste tempo. às vezes, parece um humorista, escapado do silêncio e da meditação para participar voluntariamente na elucidação dos problemas sociais e humanos. E, além do mais, ri-se satisfeito perante os seus diagnósticos bem conseguidos. E faz-nos rir com o enorme disparate da sua não representação. Pode ser que seja um riso amargo, mas só essa atitude é possível perante a empobrecedora ausência de Vallejo de painéis publicitários esclerosados, que se agarram às esgotadas rotinas do êxito importado ou da ruim claudicação. Já só falta a Vallejo o prémio Nobel. No dia em que lho derem, o mundo inteiro, excepto a sua terra, conhecerá divinamente a sua obra. Aqui, é evidente, a sociedade morre de medo perante a medicina teatral que lhe quer administrar Alfonso Vallejo.

Enrique LLOVET, Introdução a Espacio interior, Week-End