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Nota
de encenação
O que é um cromo? Um retrato a cores de uma vida a preto e branco...
O nosso quotidiano é um álbum
de cromos. Por ele passam as criaturas da nossa infância e as (também)
criaturas da idade adulta. Por ele passam os fantasmas que fomos e os
nossos próprios fantasmas. Nele nos descobrimos. E com ele rimos
do que fomos e somos, e também do que nem sempre temos a coragem
de dizer na primeira pessoa do presente ou na primeira pessoa do passado.
Mas é sempre na primeira pessoa que rimos.
Cromos é um
espectáculo sobre os cromos que somos, sem querermos ser. Um espectáculo
que se dobra na imagem deformada dos espelhos em que os vemos, na moldura
a preto e branco que os circunscreve, no riso às vezes
perverso e pervertido que nos e os sacode.
Todos somos, à nossa
maneira, os cromos do nosso riso: os pais dos filhos, os filhos dos pais,
e também as mães e os filhos e as filhas da mãe...
Quando o riso é um
soco, o teatro pode ainda ser uma arma e o palco uma arena em que as
gargalhadas lutam pelo protagonismo de que os sonhos parecem ter já desistido.
Mas se não desistirmos de rir, mesmo de nós próprios,
talvez consigamos a força que nos falta para sermos o que ainda
não somos.
João
Maria André
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